Relegere
ou Religare?
A
palavra religião, existente em português desde o século XIII, origina-se do
latim religio, religionis = culto,
pratica religiosa, cerimônia, lei divina, santidade.
Existe
um entendimento tradicional de que o substantivo religião veio do verbo, também
do latim, Relegere = reler,
revisitar, retomar o que estava largado (Cícero – 106-43, a.C). Outros afirmam
que a origem está em Religare =
religar (Lactâncio, escritor cristão - +330 d.C). Seja como for, ambos os
entendimentos se aproximam e dão a ideia de retomada de alguma coisa, de voltar
ao que foi abandonado em algum momento e, nesse caso, do que é divino, da fonte
criadora. Religião deveria ter como função aproximar os homens de Deus como
Fonte Criadora e, assim, aproximar os homens uns dos outros.
O
que vemos, no entanto, são entendimentos diferenciados em torno dessa
religação, cada um praticando-a a partir do seu próprio entendimento, ou a
partir do que considera aceitável (ou verdade) dentro do segmento religioso do
qual faça parte, dedicando-se mais ao culto exterior do que à prática dos
ensinamentos cristãos, que deveria partir da própria transformação moral,
levando o ser a respeitar o seu próximo, compreendendo os diversos níveis de
evolução de cada ser, e dessa forma, ensaiando para a prática do amor. E, no
entanto, o que vemos é cada um fazendo a releitura de acordo com o seu interesse
particular, de acordo com a sua verdade interessante, trazendo à tona uma
religião cheia de intolerância e contradições.
Vamos
optar por falar de religião com o sentido de religação com Deus, deixando de
lado o sentido de culto, assim entendido como a prática dentro dos templos, a
qual também tem sua importância na modificação do ser para melhor, a partir do
entendimento verdadeiro das leis naturais, Leis de Deus. Vamos nos ater à
prática na vida cotidiana daquilo que é ensinado nos cultos, e deveria ser
posto em prática em toda a sua pureza.
Podemos
encontrar pessoas com comportamento muito mais próximo dessa religação, mesmo
dizendo que não creem em Deus, do que uma boa parte da população que se diz
religiosa ou cristã. A frequência a uma casa ou templo religioso, sejam eles de
qualquer natureza, católicos, espíritas, umbandistas, evangélicos, etc., não
transforma a pessoa em um ser melhor, mais evoluído. A escolha de um local para
frequência significa que a pessoa está em busca daquele algo mais que a levaria
a ter uma vida melhor. Normalmente a busca pela religião se dá a partir de
alguma dificuldade ou sofrimento, espiritual ou material.
A
mudança para melhor surge a partir do entendimento de que somos uma família
universal e que somos originados da mesma fonte.
A
nossa falta de capacidade para o entendimento perfeito da nossa origem nos leva
a crer em um deus homem, que tem ira, ciúme, inveja, é guerreiro e combate seus
inimigos - as pessoas não creem nele da mesma forma que seus seguidores - de
forma cruel e condena definitivamente às chamas do inferno.
Boa
parte dos segmentos religiosos adotam trechos do velho testamento para
justificarem suas atitudes, dentro de seus interesses e ignoram outros trechos que
também estão no velho testamento, mas vai contra aquilo que lhes é confortável.
Adotam apenas o que lhes traz conforto, embora equivocado no entendimento, porque
está na Bíblia.
Jesus
quando esteve visível entre nós, não aboliu nenhuma das leis de Deus, também
contidas no Velho Testamento, mas as resumiu dessa forma: “Amar a Deus sobre
todas as coisas” e “Amar ao próximo como a si mesmo”. Quanto às Leis de Moisés,
estas por serem leis humanas, utilizadas para conter um povo rude e ignorante,
foram sendo automaticamente substituídas por outras, de acordo com a nossa evolução.
Até hoje precisamos de leis humanas para conter a sanha dos ignorantes, mas já
reflete um pequeno entendimento das Leis de Deus que estão baseadas no respeito
mútuo entre os homens e à natureza. Leis essas que são desrespeitadas
constantemente, inclusive pelo próprios legisladores humanos, o que demonstra
que estamos longe, ainda, do que se pode chamar evolução.
Ora,
se nós não conseguimos amar o nosso próximo, como podemos dizer que amamos a
Deus? Como podemos dizer que amamos nosso próximo, se muitas vezes não amamos a
nós mesmos.
Temos
o costume de amar o nosso próximo mais próximo, nossos filhos, nossos pais,
porque aquele próximo que nos traz problemas constantemente, que nos agride,
que trai nossa confiança, esse nós queremos que não fique muito próximo. Aliás,
quanto mais distante melhor.
O entendimento equivocado das palavras de Jesus nos leva a achar um verdadeiro
absurdo, amar uma pessoa que nos faz mal. Jesus não quis dizer que devemos
andar a braços com o inimigo, mas deseja que tenhamos, ao menos, compreensão em
relação às atitudes equivocadas de nossos “inimigos”, que na verdade, pelo
verdadeiro entendimento cristão deve ser considerado como um irmão, um irmão
equivocado, mas irmão, já que oriundo da mesma fonte, a qual chamamos Deus.
O nosso estágio evolutivo não
permite uma compreensão clara quanto à nossa origem. Somente os espíritos com
alto grau de evolução, como Jesus, tem uma compreensão sobre essa Fonte
Criadora e já participa mais ativamente da obra da Criação. Nós também
participamos da Obra da Criação. Contudo, ainda não somos capazes de
compreender como funcionam as Leis Naturais, Leis de Deus. Primeiramente porque
estamos muito focados nas conquistas materiais e damos prioridade a elas. Não
que as conquistas materiais não sejam importantes, mas porque elas devem estar
aliadas às conquistas espirituais.
Religião
é agir, independente de frequência à templos ou igrejas, de forma correta,
procurando, antes de agir, verificar se não estamos prejudicando alguém.
Pequenos
detalhes cotidianos, que fogem à nossa observação por já estarem automatizados
em nosso comportamento, demonstram bem o nível de evolução em que nos
encontramos.
Quando
estacionamos nosso automóvel na calçada, dificultando a passagem dos pedestres,
nossos irmãos, estamos agindo com religião? Estamos amando nosso próximo?
Imaginem se esse pedestre for um idoso ou deficiente físico. Não é, além de
tudo, uma falta de caridade? Isso é só um pequeno exemplo, mas existem muitos
outros atos que demonstram que não amamos nosso próximo.
Quando,
como comerciantes ou donos de oficinas, ocupamos as calçadas com mesas e
cadeiras ou com carros e motos aguardando conserto, é outro exemplo de falta de
amor ao próximo.
Quando
avançamos um sinal amarelo. Sim, sinal amarelo. Porque o sinal amarelo indica
que devemos reduzir a velocidade porque o sinal vai ficar vermelho e não o
contrário. A maioria de nós mete o pé no acelerador quando vê o sinal de
trânsito ficar amarelo e o que acontece? O sinal fica vermelho no momento em
que estamos passando, abre do outro lado e adivinhem quem fica sem poder
atravessar a rua? Isso mesmo, o pedestre, nosso próximo. Estamos amando o nosso
próximo adequadamente? Estamos seguindo os ensinamentos de Jesus? Por fim,
estamos praticando religião?
Esses
exemplos são apenas em relação a pessoas que não nos fizeram mal algum. Imaginem
o nosso comportamento com alguém que nos faz algum mal, com alguém que
assassina um de nossos entes queridos. Esses, se pudermos nos vingar ou deixar
apodrecer em uma cadeia para o resto da vida, sentiremos que a justiça foi
realizada. Mas estamos seguindo as orientações de Jesus, que diz que devemos
amar os nossos inimigos?
O
que Jesus quis dizer com “Amar os nossos inimigos”? Certamente que uma pessoa
dessas não nos será agradável e que vamos sentir algum tipo de repulsa e o
nosso estágio evolutivo não nos permite, ainda, ter por um ser desses o mesmo
sentimento que temos por um filho querido. Mas nós, que nos intitulamos
espíritas e cristãos, sabedores que somos de que mesmo esses seres terão uma
nova oportunidade através da porta do arrependimento, assim como nós mesmos
tivemos um dia, devemos nutrir sentimentos de ódio e vingança? Sim, porque
tivemos, ou alguém acredita que somos espíritos puros que nunca cometeram um
crime sequer. É bem provável que todos nós carreguemos na conta de nossas
consciências crimes horrendos em relação aos nossos semelhantes. E estamos
agora em resgate de faltas cometidas, talvez contra alguém que está no seio de
nossa família como um pai, um irmão, um filho problemático. Sabe-se lá que mal
fizemos aos outros para nos considerarmos capazes de julgar o nosso irmão em
erro? Nós, espíritas, temos a obrigação de, no mínimo, ter compreensão com
essas criaturas e, ao invés de alimentarmos o ódio e o desejo de vingança,
deveríamos ficar pesarosos em relação a esse ser que passará um dia por grandes
sofrimentos por ter infringido as Leis de Deus, mas que poderá um dia renascer
no nosso seio familiar e sermos obrigados a amá-lo, mesmo sem entender porque o
amamos apesar de algumas vezes nos trazer certo desconforto na convivência. Não
significa isso que devemos trazer o malfeitor para dentro de nossos lares,
trazendo perigo aos nossos familiares. Isso seria um risco desnecessário, uma
imprudência. Basta, ao invés de direcionar energias negativas, procurar orar a
Deus para que esse ser desperte e reconheça seus erros, arrependendo-se, a fim
de garantir o retorno ao encontro da fonte Criadora, entrar em religião. Não na
religião, mas em religião, religião com a origem, religião com Deus. O nosso
ente querido que foi arrebatado do nosso convívio carnal, esse nós o
encontraremos no mundo espiritual, são e salvo, e, se formos merecedores,
encontraremos com ele, mesmo antes de partirmos para a pátria espiritual.
Assim
funciona, em parte, a reencarnação e compreender essas coisas e nos modificarmos
intimamente buscando essa compreensão, aprendendo a conviver com as pessoas que
nos são desagradáveis e nos trazem transtornos é um passo para começarmos a
praticar religião e não sermos apenas seguidores de doutrinas religiosas.
Obrigado aos mentores
espirituais que me ajudaram trazendo inspiração e obrigado a Deus e a Jesus por
terem permitido.
Que paz de
Jesus possa nos alcançar e possamos intimamente sentir sua presença nos bons e
maus momentos da vida. Fiquem com Deus e que Ele nos abençoe, hoje e sempre.
Graças a Deus.
Excelente texto, amigo Neil! Parabéns!
ResponderExcluirObrigado, meu amigo
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