terça-feira, 18 de março de 2014

Religião

Relegere ou Religare?

A palavra religião, existente em português desde o século XIII, origina-se do latim religio, religionis = culto, pratica religiosa, cerimônia, lei divina, santidade.

Existe um entendimento tradicional de que o substantivo religião veio do verbo, também do latim, Relegere = reler, revisitar, retomar o que estava largado (Cícero – 106-43, a.C). Outros afirmam que a origem está em Religare = religar (Lactâncio, escritor cristão - +330 d.C). Seja como for, ambos os entendimentos se aproximam e dão a ideia de retomada de alguma coisa, de voltar ao que foi abandonado em algum momento e, nesse caso, do que é divino, da fonte criadora. Religião deveria ter como função aproximar os homens de Deus como Fonte Criadora e, assim, aproximar os homens uns dos outros.

O que vemos, no entanto, são entendimentos diferenciados em torno dessa religação, cada um praticando-a a partir do seu próprio entendimento, ou a partir do que considera aceitável (ou verdade) dentro do segmento religioso do qual faça parte, dedicando-se mais ao culto exterior do que à prática dos ensinamentos cristãos, que deveria partir da própria transformação moral, levando o ser a respeitar o seu próximo, compreendendo os diversos níveis de evolução de cada ser, e dessa forma, ensaiando para a prática do amor. E, no entanto, o que vemos é cada um fazendo a releitura de acordo com o seu interesse particular, de acordo com a sua verdade interessante, trazendo à tona uma religião cheia de intolerância e contradições.

 Vamos optar por falar de religião com o sentido de religação com Deus, deixando de lado o sentido de culto, assim entendido como a prática dentro dos templos, a qual também tem sua importância na modificação do ser para melhor, a partir do entendimento verdadeiro das leis naturais, Leis de Deus. Vamos nos ater à prática na vida cotidiana daquilo que é ensinado nos cultos, e deveria ser posto em prática em toda a sua pureza.

Podemos encontrar pessoas com comportamento muito mais próximo dessa religação, mesmo dizendo que não creem em Deus, do que uma boa parte da população que se diz religiosa ou cristã. A frequência a uma casa ou templo religioso, sejam eles de qualquer natureza, católicos, espíritas, umbandistas, evangélicos, etc., não transforma a pessoa em um ser melhor, mais evoluído. A escolha de um local para frequência significa que a pessoa está em busca daquele algo mais que a levaria a ter uma vida melhor. Normalmente a busca pela religião se dá a partir de alguma dificuldade ou sofrimento, espiritual ou material.

A mudança para melhor surge a partir do entendimento de que somos uma família universal e que somos originados da mesma fonte.

A nossa falta de capacidade para o entendimento perfeito da nossa origem nos leva a crer em um deus homem, que tem ira, ciúme, inveja, é guerreiro e combate seus inimigos - as pessoas não creem nele da mesma forma que seus seguidores - de forma cruel e condena definitivamente às chamas do inferno.

Boa parte dos segmentos religiosos adotam trechos do velho testamento para justificarem suas atitudes, dentro de seus interesses e ignoram outros trechos que também estão no velho testamento, mas vai contra aquilo que lhes é confortável. Adotam apenas o que lhes traz conforto, embora equivocado no entendimento, porque está na Bíblia.

Jesus quando esteve visível entre nós, não aboliu nenhuma das leis de Deus, também contidas no Velho Testamento, mas as resumiu dessa forma: “Amar a Deus sobre todas as coisas” e “Amar ao próximo como a si mesmo”. Quanto às Leis de Moisés, estas por serem leis humanas, utilizadas para conter um povo rude e ignorante, foram sendo automaticamente substituídas por outras, de acordo com a nossa evolução. Até hoje precisamos de leis humanas para conter a sanha dos ignorantes, mas já reflete um pequeno entendimento das Leis de Deus que estão baseadas no respeito mútuo entre os homens e à natureza. Leis essas que são desrespeitadas constantemente, inclusive pelo próprios legisladores humanos, o que demonstra que estamos longe, ainda, do que se pode chamar evolução.

Ora, se nós não conseguimos amar o nosso próximo, como podemos dizer que amamos a Deus? Como podemos dizer que amamos nosso próximo, se muitas vezes não amamos a nós mesmos.

Temos o costume de amar o nosso próximo mais próximo, nossos filhos, nossos pais, porque aquele próximo que nos traz problemas constantemente, que nos agride, que trai nossa confiança, esse nós queremos que não fique muito próximo. Aliás, quanto mais distante melhor.

O entendimento equivocado das palavras de Jesus nos leva a achar um verdadeiro absurdo, amar uma pessoa que nos faz mal. Jesus não quis dizer que devemos andar a braços com o inimigo, mas deseja que tenhamos, ao menos, compreensão em relação às atitudes equivocadas de nossos “inimigos”, que na verdade, pelo verdadeiro entendimento cristão deve ser considerado como um irmão, um irmão equivocado, mas irmão, já que oriundo da mesma fonte, a qual chamamos Deus.

O nosso estágio evolutivo não permite uma compreensão clara quanto à nossa origem. Somente os espíritos com alto grau de evolução, como Jesus, tem uma compreensão sobre essa Fonte Criadora e já participa mais ativamente da obra da Criação. Nós também participamos da Obra da Criação. Contudo, ainda não somos capazes de compreender como funcionam as Leis Naturais, Leis de Deus. Primeiramente porque estamos muito focados nas conquistas materiais e damos prioridade a elas. Não que as conquistas materiais não sejam importantes, mas porque elas devem estar aliadas às conquistas espirituais.

Religião é agir, independente de frequência à templos ou igrejas, de forma correta, procurando, antes de agir, verificar se não estamos prejudicando alguém.

Pequenos detalhes cotidianos, que fogem à nossa observação por já estarem automatizados em nosso comportamento, demonstram bem o nível de evolução em que nos encontramos.

Quando estacionamos nosso automóvel na calçada, dificultando a passagem dos pedestres, nossos irmãos, estamos agindo com religião? Estamos amando nosso próximo? Imaginem se esse pedestre for um idoso ou deficiente físico. Não é, além de tudo, uma falta de caridade? Isso é só um pequeno exemplo, mas existem muitos outros atos que demonstram que não amamos nosso próximo.

Quando, como comerciantes ou donos de oficinas, ocupamos as calçadas com mesas e cadeiras ou com carros e motos aguardando conserto, é outro exemplo de falta de amor ao próximo.

Quando avançamos um sinal amarelo. Sim, sinal amarelo. Porque o sinal amarelo indica que devemos reduzir a velocidade porque o sinal vai ficar vermelho e não o contrário. A maioria de nós mete o pé no acelerador quando vê o sinal de trânsito ficar amarelo e o que acontece? O sinal fica vermelho no momento em que estamos passando, abre do outro lado e adivinhem quem fica sem poder atravessar a rua? Isso mesmo, o pedestre, nosso próximo. Estamos amando o nosso próximo adequadamente? Estamos seguindo os ensinamentos de Jesus? Por fim, estamos praticando religião?

Esses exemplos são apenas em relação a pessoas que não nos fizeram mal algum. Imaginem o nosso comportamento com alguém que nos faz algum mal, com alguém que assassina um de nossos entes queridos. Esses, se pudermos nos vingar ou deixar apodrecer em uma cadeia para o resto da vida, sentiremos que a justiça foi realizada. Mas estamos seguindo as orientações de Jesus, que diz que devemos amar os nossos inimigos?

O que Jesus quis dizer com “Amar os nossos inimigos”? Certamente que uma pessoa dessas não nos será agradável e que vamos sentir algum tipo de repulsa e o nosso estágio evolutivo não nos permite, ainda, ter por um ser desses o mesmo sentimento que temos por um filho querido. Mas nós, que nos intitulamos espíritas e cristãos, sabedores que somos de que mesmo esses seres terão uma nova oportunidade através da porta do arrependimento, assim como nós mesmos tivemos um dia, devemos nutrir sentimentos de ódio e vingança? Sim, porque tivemos, ou alguém acredita que somos espíritos puros que nunca cometeram um crime sequer. É bem provável que todos nós carreguemos na conta de nossas consciências crimes horrendos em relação aos nossos semelhantes. E estamos agora em resgate de faltas cometidas, talvez contra alguém que está no seio de nossa família como um pai, um irmão, um filho problemático. Sabe-se lá que mal fizemos aos outros para nos considerarmos capazes de julgar o nosso irmão em erro? Nós, espíritas, temos a obrigação de, no mínimo, ter compreensão com essas criaturas e, ao invés de alimentarmos o ódio e o desejo de vingança, deveríamos ficar pesarosos em relação a esse ser que passará um dia por grandes sofrimentos por ter infringido as Leis de Deus, mas que poderá um dia renascer no nosso seio familiar e sermos obrigados a amá-lo, mesmo sem entender porque o amamos apesar de algumas vezes nos trazer certo desconforto na convivência. Não significa isso que devemos trazer o malfeitor para dentro de nossos lares, trazendo perigo aos nossos familiares. Isso seria um risco desnecessário, uma imprudência. Basta, ao invés de direcionar energias negativas, procurar orar a Deus para que esse ser desperte e reconheça seus erros, arrependendo-se, a fim de garantir o retorno ao encontro da fonte Criadora, entrar em religião. Não na religião, mas em religião, religião com a origem, religião com Deus. O nosso ente querido que foi arrebatado do nosso convívio carnal, esse nós o encontraremos no mundo espiritual, são e salvo, e, se formos merecedores, encontraremos com ele, mesmo antes de partirmos para a pátria espiritual.

Assim funciona, em parte, a reencarnação e compreender essas coisas e nos modificarmos intimamente buscando essa compreensão, aprendendo a conviver com as pessoas que nos são desagradáveis e nos trazem transtornos é um passo para começarmos a praticar religião e não sermos apenas seguidores de doutrinas religiosas.

Obrigado aos mentores espirituais que me ajudaram trazendo inspiração e obrigado a Deus e a Jesus por terem permitido.

Que paz de Jesus possa nos alcançar e possamos intimamente sentir sua presença nos bons e maus momentos da vida. Fiquem com Deus e que Ele nos abençoe, hoje e sempre.

Graças a Deus.



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