domingo, 9 de abril de 2017

Apontamentos sobre o filme A Cabana

                Antes do filme A Cabana entrar em cartaz na minha cidade, assisti ao trailer e também li alguns comentários acerca dos perigos que o filme poderia oferecer, inclusive no tocante ao filme apresentar uma mulher como sendo a figura de Deus, já que Deus não teria sexo. Isso aguçou minha vontade de assisti-lo, pois não poderia tecer comentários ou criticá-lo negativamente sem antes conhecê-lo, coisa que a maioria das pessoas faz. Ressalto que não cheguei a ler o livro, mas pretendo fazê-lo tão logo possa.

                Pois bem, o filme conta a história de uma pessoa, Mack (Sam Worthington), e sua experiência com a divindade. Mack, quando menino, sofria com os mau tratos que seu pai impunha à sua mãe e, um dia, orientado por uma vizinha que o acolheu em um dos momentos em que seu pai agredia sua mãe, buscou a ajuda de Deus. Na igreja que frequentava com a família, procurou o pastor e pediu perdão a Deus por não poder ajudar a mãe, revelando o que o pai fazia quando estava alcoolizado. Isso lhe custou uma surra durante uma noite inteira, levando-o a decidir envenenar o pai.

                Adulto, Mack constituiu família, tornou-se pai amoroso e, em um passeio com os três filhos em um acampamento, a menorzinha desapareceu. Mack não tinha um relacionamento muito íntimo com Deus, ao contrário de sua esposa que o tratava por “Papai” e dirigia-se a Deus com a intimidade com que se dirigiria a um pai querido.

                Com o desaparecimento da filha e a constatação de que fora raptada e morta, Mack entrou em estado de tristeza, bem como sua outra filha passou a se sentir culpada pelo desaparecimento da irmã, já que o fato ocorreu em um momento de distração do pai devido a um acidente provocado por ela. Inicia-se, então, o processo de “cura” e da sua aproximação a Deus.

                No filme, Deus, ou Papai, apresenta-se na figura de uma mulher negra (Octavia Spencer) e isso, foi esclarecido pela própria personagem.  Tendo o menino Mack sofrido horrores nas mãos do pai, muito provavelmente haveria rejeição se “Deus” tivesse se apresentado como homem. Ao contrário, apresentou-se como mulher de acordo com as suas lembranças de infância, daquela vizinha que o acolheu nos momentos de sofrimento e dor.

                Nesse contato com Deus, Mack questionou muito, revoltou-se, mas foi dado a ele o poder de escolha (livre arbítrio) de se curar ou voltar para casa e continuar vivendo sua tristeza e sua culpa. Interessado no desfecho do que estava lhe acontecendo, resolveu ficar. E Deus lhe apresentou a cura através do perdão. Ele precisou depurar suas dores através do perdão bem entendido. E somente depois de perdoar o próprio pai e o assassino de sua filha é que conseguiu se libertar dos traumas e se transformar em uma pessoa mais leve.

                Coincidentemente, assisti ao filme após ter recebido de uma grande amiga um vídeo de Rossandro Klinjey falando sobre o mesmo assunto, o perdão, que vale a pena assistir, basta acessar através do link: https://youtu.be/85-bE7ywbFA.

                Importante também ressaltar que a esposa de Mack, Nan (Radha Mitchell), que tinha mais intimidade com Deus, não sofreu tanto com o desaparecimento da filha. Sofreu mais com o estado em que o marido se encontrava e que estava, aos poucos, destruindo a família.

                A mensagem que absorvi do filme, e que acredito que muitos não irão compreender e achar o filme ruim, foi:

1)      A de que somos eternos, o que qualquer religião cristã afirma, embora o filme não seja de cunho religioso. A morte do corpo físico não nos destrói e permanecemos sendo uma individualidade, conforme afirma o Espiritismo. Mack pôde ver o estado espiritual em que se encontrava sua filha, e isso o confortou. Teve contato também com a visão das criaturas, filhas de Deus, não como pessoas, mas como cores, energias, vibrações e. dentre elas, surgiu seu pai, momento em que puderam se perdoar, reciprocamente.

2)      O poder do perdão na cura de nossas mazelas, pois enquanto não perdoamos e não deixamos o passado no passado, permanecemos sofrendo. O perdão não significa esquecer o mal que nos fizeram, mas deixa-lo no passado, onde é seu lugar, para prosseguirmos com a nossa vida. Com o perdão, mais do que libertar o nosso ofensor, libertamos a nós mesmos.

Por que temos tanta dificuldade em entender Deus e também para entender a mensagem contida nos evangelhos?

A nossa visão materialista de Deus, quando o transformamos numa figura cheia dos nossos defeitos e com sentimentos próprios da imperfeição humana, nos faz crer num deus injusto.

Em primeiro lugar, precisaríamos admitir que somos eternos, que a passagem pela roupagem física representa bem menos do que uma fração de segundo perante a eternidade e que esse pequeno lapso de tempo em que vivemos na Terra não seria suficiente para determinar a nossa condenação ao inferno ou ao céu, que aliás não passam de estados de alma, trazendo à tona que somente através da reencarnação poderíamos assegurar uma justiça igualitária que garantiria a todos a oportunidade de corrigirem seus erros. Deus ama todas as suas criaturas, mesmo as que estão em erro, pois como afirmou o Mestre Nazareno em Matheus 18:10-14, o bom pastor vai atrás da única ovelha que se perdeu, a fim de resgatá-la, numa demonstração de que nenhuma ovelha confiada a ele se perderá. Portanto, seria um contrassenso, afirmar que por uma única vida de erros estaríamos condenados ao inferno eterno e que não teríamos nunca a oportunidade de, através do arrependimento, resgatarmos as nossas dívidas. Toda a humanidade terrestre estaria condenada a isso, pois não há uma alma sequer, aqui neste planeta que não tenha cometido ao menos um erro, bem como não seria justo o simples fato de arrepender-se ser suficiente para livrá-lo da condenação eterna, sem que fosse possível recolocar as coisas no lugar. Seria injusto, principalmente com aqueles que procuraram pautar suas vidas pelo caminho ca correção. Somente a reencarnação seria capaz de propiciar essa oportunidade.

Muitas pessoas  de outros entendimentos religiosos poderiam afirmar que é um absurdo a Lei da Reencarnação, mas essas mesmas pessoas afirmariam que creem no Deus do impossível e que esse mesmo Deus pode fazer com que, na Ressurreição, a alma possa retornar a um corpo já decomposto pela natureza, onde seus elementos já foram utilizados para constituir novos organismos, levantando-se da tumba, como verdadeiros zumbis, para retornarem à vida, mais uma vez, apenas com a visão materialista da ressureição. Se Deus é o Deus do Impossível, por que não poderia, através da geração de um novo corpo no ventre materno, destiná-lo a reencarnação de um espírito que necessita de uma nova oportunidade para corrigir seus erros?

Mas, voltando ao foco do filme, poucas pessoas conseguirão entender a mensagem que foi deixada se não analisarem afastados do preconceito religioso. Ainda existem pessoas que acreditam que se tocarem o disco da Xuxa de trás para frente ouvirão uma mensagem do demônio. Então, se o preconceito religioso ficar focado no fato de que Deus foi representado no filme pela figura de uma mulher, embora em determinado momento se apresentou também na forma masculina, não conseguiremos captar a mensagem do filme, onde mostra que Deus se apresenta para nós da forma em que temos capacidade de entender e aquela foi a maneira de Mack conhecer Deus.

A Cabana mostra que a chave para o personagem em conflito se libertar de seu sofrimento, adquirindo uma nova perspectiva de vida, transformando-se numa pessoa melhor, mais confiante, alegre e bem-disposta foi O PERDÃO. E me perdoem os religiosos que acham que a mensagem do filme é perigosa, pois não consigo perceber onde há o perigo em disseminar a atitude do perdão, sobretudo para quem se diz cristão. São palavras do Cristo, contidas em Matheus 5:44-48:
44 Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
45 Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
46 Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
47 E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
48 Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

Para mim, valeu a pena. Saí do cinema refletindo muito sobre como tenho conduzido minhas escolhas.


Paz e Luz